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Batman de 66 (parte 1): Nas Trilhas do Homem-Morcego
12 / 06 / 2007

 

     Salve, Bat-fã! Bem, em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer a todos os amigos, parentes, representantes de fã-clubes, editores, atores, dubladores e a imprensa especializada, pelas manifestações de carinho e prestígio, durante os eventos que marcaram, em 2006 e em 2007, os lançamentos do meu livro Sock! Pow! Crash! - 40 anos da Série Batman da TV (Opera Graphica Editora). E para não cometer injustiça, deixar de citar algum nome importante, prefiro enfatizar que todos - sem exceção - contribuíram para o sucesso deste precioso trabalho de pesquisa.
  Quanto a Batman de 66, sugiro que seja comentado aqui por partes, haja vista a quantidade de informações e curiosidades que norteiam um dos seriados mais inventivos e revolucionários da TV. Assim sendo, percorreremos, inicialmente, as trilhas do Cruzado Embuçado.
     A série, como é sabida pelos bat-fãs, fez história na comunicação social e na cultura de massa. E não à toa que o seu produtor, William Dozier, foi aclamado pela crítica como um gênio do entretenimento televisivo. Com larga experiência neste segmento, tornou-se responsável por uma das maiores campanhas de marketing já realizadas para o lançamento de um programa, cujo resultado provocou uma excepcional audiência e uma mania nacional, disseminando mais tarde o fenômeno, mundialmente, conhecido pela mídia como batmania.
  Quando estreou na rede americana ABC, em 12 de janeiro daquele ano, deixou clara sua marca de inovação com uma abertura produzida em desenho animado e embalada pelo ritmo frenético de Batman Theme, criado originalmente por Neal Hefti. Uns cantavam "pã-rã-rã-rã-rã...", outros "tã-rã-rã-rã-rã...", eu sempre cantei "tã-nã...nã-nã ..nãnã... nã-nã-nãã...Batmaaan!". Até hoje, o tema mais popular do Homem-Morcego.

    No entanto, Bill Dozier, assessorado por Lionel Newman, o então supervisor musical dos seriados da Twentieth-Century Fox Television, resolveu convidar Nelson Riddle (o maestro preferido de Frank Sinatra) para fazer um novo arranjo sobre o tema de Hefti e assinar a trilha sonora de Batman de 66. Riddle criou uma versão "mais dinâmica", sugerida pelos produtores. Inseriu mais pandeirolas, instrumentos de sopro, metais e um coro vibrante no acompanhamento do refrão, presente tanto na abertura - com as maravilhosas pontuações musicais das onomatopéias - como nos créditos finais. Traduziu com perfeição o estilo camp da série, encabeçada por Adam West e Burt Ward.
  Em contrapartida, Hefti, que ganharia mais tarde o Grammy, na categoria Melhor Composição Instrumental para a TV, não se conteve e chegou a lançar um álbum inspirado na série. Este trabalho, lançado ainda em 66, infelizmente não seguiu o sucesso da trilha sonora, composta por Riddle. Excetuando Batman Theme e mais duas ou três faixas, deixou muito a desejar. Por isso, sua obra ficou associada apenas ao bat-tema, hit absoluto e difundido por bandas famosas, como The Ventures, que incendiava os bailes com sua versão surf music, para o delírio daquela geração psicodélica, dotada de imaginação e rebeldia.
  Falemos, então, um pouco deste álbum antológico assinado por Riddle. Outra grande marca da inovação. Antes de Batman de 66, os temas dos heróis só entravam nas aberturas e encerramentos ou, raramente, como música incidental nas cenas de ação ou perigo. Pela primeira vez na TV, um seriado apresentava um tratamento sonoro em nível de igualdade aos grandes clássicos do cinema. De ponta à ponta, cada episódio era coberto por uma sonoplastia impecável.

  Os principais vilões (Pinguim, Coringa, Charada e Mulher-Gato) ganharam temas instrumentais personalizados. Alguns também chegaram a ser contemplados por Riddle, como o caso da sensualíssima Zelda, do faraó Rei Tut, do intelectual Traça e do bandoleiro Shame. às vezes, a trilha dava lugar aos efeitos sonoros e às músicas incidentais, como na descida pelos bat-postes, na partida do batmóvel pela saída secreta da batcaverna, nas bat-lutas e nas cenas em que os heróis apareciam presos a uma armadilha absurda, bem ao estilo dos quadrinhos dos anos 60.
  Neste trabalho, além do registro das vozes originais de Bill Dozier, Adam West, Burt
Ward, Frank Gorshin, Burgess Meredith, George Sanders, Anne Baxter e Jack Kruschen, os destaques ficam por conta das faixas Batman Riddles The Riddler! - or - (Hi Diddle Riddle), Batusi A-Go!Go! - or - (I Shouldn't To attract Attention), To The Batmobile!, Batman Blues, Holy Flypaper, Gotham City, Zelda Tempts Batman - or - (Must He Go It Alone???) e, é claro, Batman Theme.
   O sucesso de Batman na TV despertou também o interesse de diversas gravadoras, que convidavam artistas para compor músicas inspiradas na série ou com referências aos seus personagens. O próprio Burt Ward gravou um álbum inteiro, em 1966, com produção de Frank Zappa e participação de alguns Mothers of Invention. Outro exemplo foi o Long Play (LP) da Warner, chamado 'The Marketts Play Batman', editado neste mesmo ano. The Marketts, na verdade não existia, era uma "gangue" de grandes músicos de estúdio de Los Angeles, que de vez em quando gravava um álbum, com produção de Joe Sarraceni. O grupo era mesclado e, entre estrelas, estavam Hal Blaine, Rene Hall, Leon Russel, Carol Kaye, Bruce Johnston e Steve Douglas.
   Nem mesmo o cantor e compositor George Harrison escapou da batmania. Críticos polemizaram quando afirmaram haver semelhança entre a música Taxman, do álbum Revolver dos Beatles, com a abertura de Batman da TV.
   Mas para o bat-fã, que gosta de curiosidades, a trilha sonora da série oferece um cardápio variado: o versátil produtor, Bill Dozier, que também assumia o papel de narrador, assinou a alcunha "Desmond Doomsday"; A faixa 8, Batman Blues, que pontuava os encontros sensuais e os coquetéis da alta sociedade de Gotham City é usada, algumas vezes, pela produção do Programa Vídeo-Show, da Rede Globo, como fundo musical do quadro "Agenda de Aniversariantes"; Na faixa 10, Batman Thaws Mr. Freeze - or - (That's The Way The Ice-Cube Crumbles!), ouve-se o Prelúdio de Chopin, Opus 28 - Número 4 em Mi Menor, durante as falas do Senhor Gelo (George Sanders), em Descongelamento Instantâneo e Rato Gosta de Queijo, trecho este que somente foi tocado no episódio anterior, The Joker is Wild (não traduzido pela dublagem brasileira), quando o jovem Dick Grayson (Burt Ward) está ao piano em companhia de sua Tia Harriet (Madge Blake). Outro detalhe interessante: Batusi A-Go! Go! não se refere à cena da dança Batusi, imortalizada por Adam West. Trata-se da trilha incidental das bat-lutas. A famosa dança psicodélica do episódio-piloto rolou ao som de Holy Flypaper.
   Curiosidades à parte, em 66, Nelson Riddle, com o seu talento refinado, também foi o responsável pela trilha sonora do longa-metragem, em que a dupla dinâmica enfrentou, ao mesmo tempo, os seus quatro maiores inimigos. O compositor utilizou os temas já criados e consagrados pela TV e pontuou a aparição de cada arqui-vilão, com acordes característicos. Misturou então esses acordes com alguns trechos melódicos do tema de Hefti, desenvolvendo assim o tema de abertura do filme. O score é bem jazzístico, com acentuação predominante de instrumentos de sopro e metais, marca autoral de Riddle, que também criou novos arranjos para as cenas de luta e para os novos bat-veículos.
   Riddle, que chegou a assinar arranjos e regência para o brasileiro Tom Jobim, como em The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim - 1964, deixou uma obra inesquecível. Para se ter uma idéia, a composição To the batmobile, let's go! é até hoje muito utilizada pelos piratas dos samplers e produtores de remixes de house music. Isto sem contar o tema cult, que já passou por

vários ritmos e arranjos: new wave com o grupo The Jam; uma versão mais acelerada na guitarra ácida de Paul Weller; e base remix para o Batdance de Prince, entre outros. Em 2002, Batman Theme virou um rap dos bons no telefilme Return To the Batcave, produzido pela CBS e dirigido por Paul A. Kaufman.
   Mas um dos maiores tributos aconteceu em 1997, quando Cary E. Mansfield e Jim Pierson lançaram, para o delírio dos fãs, Batmania - Songs Inspired By The Batman TV Series - uma compilação musical bastante divertida (grande parte das canções gravada em 66), com interpretações antológicas de Adam West e Frank Gorshin, que cantam em algumas faixas, além da interpretação ímpar de Burgess Meredith. Vale ressaltar também a faixa 12, The Riddler. Os ouvidos mais apurados podem registrar o trocadilho em inglês, logo na introdução, quando Gorshin (O Charada) solta a infâmia: Riddle me this! What you call a sleeping bull? Answer: a "Bill" Dozier! Uma brincadeira com o nome do produtor executivo.
   Outro compositor que merece registro é o maestro Billy May. Em 1968, início da terceira temporada, ele substituiu Nelson Riddle, que se afastou do projeto, ficando, portanto, sob a sua responsabilidade a trilha sonora da TV. Seu trabalho de destaque, no entanto, foi apenas o tema da Batgirl, personagem que acabava de estrear para salvar a audiência do programa. Billy também compôs o tema da série O Besouro Verde e o piloto da TV Dick Tracy, produções de Dozier. No caso de O Besouro Verde, o arranjo foi magistralmente assinado por Al Hirt, que também deu um show de trompete, na versão raríssima de Batman Theme, faixa 5 de Batmania - Songs Inspired by The Batman TV Series.
   Billy May, também um velho conhecido de Frank Sinatra e Tom Jobim, teve sua obra lembrada, recentemente, no filme Kill Bill, de Quentin Tarantino, e já foi abertura do programa RockGol, da MTV.

   E para encerrar esta coluna, duas notas importantes que, certamente, deixariam Neal Hefti orgulhoso: em outubro passado, na Flórida, EUA, golfinhos do Epcot Center foram ensinados a "cantar" Batman Theme. A iniciativa fez parte de uma pesquisa, realizada pelo New College of Florida, que testou a capacidade dos animais de reconhecer e reproduzir ritmos. Eles emitiam um som com a boca, como se "cantassem" a música-tema de Batman, de acordo com associação correta entre o canto e o ritmo. Santo Pavarotti, Batman!
   E no Brasil, a banda Bat-Caverna, que agita, há mais de duas décadas, o carnaval de Diamantina, em Minas Gerais, deu mais um show este ano. Milhares de pessoas se concentraram para ver a Bat-Caverna comandar a "bat-ucada" na cidade histórica. Adivinhe, então, caro leitor, qual a música que sempre abre a folia mineira? Acertou! Batmaaan!

 

 

 

Jorge Ventura é ator, jornalista e publicitário. Lançou o livro Sock! Pow! Crash! – 40 anos da série Batman da TV (Opera Graphica – 2006) e foi um dos redatores do zine Tribuna do Morcego, da OFHM (Ordem Filosófica do Homem-Morcego), fundada pelo colunista e por Márcio Escoteiro, numa iniciativa de Leonardo Vieira.

 

 


 

* O Primeiro Batman a gente nunca esquece - 11 / 04 / 2006

* A Volta do Homem-Morcego, chamado pelo bat-sinal! - 04 / 07 / 2006

* Batman de 66 (parte 1): Nas Trilhas do Homem-Morcego - 12 / 06 / 2007