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     Trágico comics - (10/09/2005)

 

     É impossível para um batmaníaco assistir à anarquia tomando conta de Nova Orleans sem se recordar da Terra de Ninguém. A vida imita tragicamente a arte e as tristes semelhanças entre as duas catástrofes naturais assombram. A história está se repetindo da pior forma possível: com milhares de vítimas reais e uma série de infortúnios.
     O Katrina – furacão que chegou à categoria cinco, a mais alta na escala usada para medir a força desse fenômeno – atingiu em 26 de agosto o sul dos Estados Unidos (Flórida, Louisiana, Mississippi e Alabama). Seus ventos trouxeram mais de 700 mortes, incontáveis desabrigados e prejuízos de bilhões de dólares. No centro dos acontecimentos, a bela e multicultural metrópole ainda sofre com inundações e a demora das autoridades federais em socorrer sobreviventes. Outro quadro dramático aconteceu em 1999, com o arco de histórias de Batman que descrevia a tragédia na fictícia Gotham City causada por um terremoto.

     O drama de Gotham foi contado em duas partes – o cataclisma com os fatos ocorridos nos primeiros dias que o seguiram e o isolamento imposto pelo governo federal, referendado pelo Congresso Americano. Estava decretado o abandono oficial sob a sigla NML, de No Man's Land (Terra de Ninguém). Em outras palavras: era uma terra sem lei. Entregue à própria sorte, Nova Orleans também foi palco da ação de gangues e multidões histéricas. O caos que se seguiu aos eventos fatídicos lembra o das páginas daqueles comics que narraram uma das mais criativas aventuras do Homem-Morcego. No que se refere à incompetência da Casa Branca, o roteiro é pateticamente o mesmo do noticiário atual.
     Quando Gotham foi arrasada pelos tremores e infestada por epidemias, sendo isolada por um ano do resto do país, novas ameaças brotaram associadas ao desespero, à baderna e aos deslizes políticos. A cidade é reconstruída no final da saga por Lex Luthor, inimigo mortal do Superman, perdendo parte de sua arquitetura gótica e ganhando as luzes das construções art déco.

     Seria esse outro presságio para o desfecho da calamidade na jóia sulista?
     Publicada em formatinho, na série Premium (Editora Abril), Terra de Ninguém mostra uma Gotham convertida a uma cidadela medieval onde se convive com a luta por artigos de primeiríssima necessidade. Com a demora de Batman em auxiliar sua cidade, Helena Bertinelli, a Caçadora, passou a agir sem autorização como Batgirl, tentando-se valer do mito do Morcego para ações humanitárias e vencer os vandalismos pós-tragédia. A participação de Asa Noturna começa com a missão dada por Batman para que retomasse a prisão Blackgate das mãos do Carcereiro. O mentor do grupo Batsquad também precisou organizar milícias de bairro e fazer alianças estratégicas com velhos rivais, como o Pingüim, para contornar emergências.
     Enquanto o governo de George W. Bush promete o maior plano de reconstrução já visto, para corrigir danos estimados em US$ 125 bilhões (montante que não pára de ser revisado para cima), os quadrinhos alertam para novas dificuldades. O primeiro exemplo foi a maior batalha que Bruce Wayne viveu sob trajes civis, superada talvez apenas pelo período no qual lutou para se libertar da cadeira de rodas e retomar seu manto. O bilionário teve de conter os avanços do magnata de Metrópolis, que se rotulava redentor de Gotham, e fazer lobby junto a congressistas para restaurar as pontes que ligavam a cidade ao continente. Mais tarde, Luthor chegaria à presidência da superpotência.
     Os conflitos vistos nos últimos dias em Nova Orleans lembram o Terceiro Mundo e a resposta aos saqueadores com lei marcial e pistoleiros, revela um contexto digno de NML. Mas voluntários de outras regiões, inclusive celebridades como John Travolta, tornam-se heróis como Batman e o comissário James Gordon, que ficaram na Terra de Ninguém para manter a ordem e defender os oprimidos (a maioria gente pobre que não conseguiu ou quis sair dali) contra loucos, ladrões e aproveitadores à solta.
    
As águas que inundam metade da Capital do Jazz tornaram-se um caldo perigoso. Além dos esgotos e cadáveres de pessoas e animais, há pelo menos sete mil tanques submersos com materiais tóxicos, que foram construídos para estarem enterrados e não submersos. Existe ainda outros venenos em vagões de trens e armazéns, além de estoques de indústrias. Cidade inundada, casas destruídas, saques, mortes, baderna, falta de luz, escassez de água e muita gente sofrendo... à espera, talvez, de um bat-sinal de esperança.

 

PS: Obrigado ao amigo Renato Araújo pelo convite para fazer esta seção. Para fazer o texto de estréia, troquei idéias com o jornalista Jorge Ventura, do Rio.