Seria esse outro presságio para o desfecho da calamidade na jóia sulista?
Publicada em formatinho, na série Premium (Editora Abril), Terra
de Ninguém mostra uma Gotham convertida a uma cidadela medieval onde se convive com a
luta por artigos de primeiríssima necessidade. Com a demora de Batman em auxiliar sua
cidade, Helena Bertinelli, a Caçadora, passou a agir sem autorização como Batgirl,
tentando-se valer do mito do Morcego para ações humanitárias e vencer os vandalismos
pós-tragédia. A participação de Asa Noturna começa com a missão dada por Batman para
que retomasse a prisão Blackgate das mãos do Carcereiro. O mentor do grupo Batsquad
também precisou organizar milícias de bairro e fazer alianças estratégicas com velhos
rivais, como o Pingüim, para contornar emergências.
Enquanto o governo de George W. Bush promete o maior
plano de reconstrução já visto, para corrigir danos estimados em US$ 125 bilhões
(montante que não pára de ser revisado para cima), os quadrinhos alertam para novas
dificuldades. O primeiro exemplo foi a maior batalha que Bruce Wayne viveu sob trajes
civis, superada talvez apenas pelo período no qual lutou para se libertar da cadeira de
rodas e retomar seu manto. O bilionário teve de conter os avanços do magnata de
Metrópolis, que se rotulava redentor de Gotham, e fazer lobby junto a congressistas para
restaurar as pontes que ligavam a cidade ao continente. Mais tarde, Luthor chegaria à
presidência da superpotência.
Os conflitos vistos nos últimos dias em Nova Orleans
lembram o Terceiro Mundo e a resposta aos saqueadores com lei marcial e pistoleiros,
revela um contexto digno de NML. Mas voluntários de outras regiões, inclusive
celebridades como John Travolta, tornam-se heróis como Batman e o comissário James
Gordon, que ficaram na Terra de Ninguém para manter a ordem e defender os oprimidos (a
maioria gente pobre que não conseguiu ou quis sair dali) contra loucos, ladrões e
aproveitadores à solta.
As águas que inundam metade da Capital do Jazz
tornaram-se um caldo perigoso. Além dos esgotos e cadáveres de pessoas e animais, há
pelo menos sete mil tanques submersos com materiais tóxicos, que foram construídos para
estarem enterrados e não submersos. Existe ainda outros venenos em vagões de trens e
armazéns, além de estoques de indústrias. Cidade inundada, casas destruídas, saques,
mortes, baderna, falta de luz, escassez de água e muita gente sofrendo... à espera,
talvez, de um bat-sinal de esperança.
PS: Obrigado ao amigo Renato Araújo pelo convite para fazer esta
seção. Para fazer o texto de estréia, troquei idéias com o jornalista Jorge Ventura,
do Rio. |