BATBASE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     Anta antológica - (09/10/2005)

 

     Carga criativa pesada para demolir todo detalhe "sério" de super-heróis dos quadrinhos. Assim poderia ser descrita a idéia central de Bizarro Comics! (Opera Graphica), um belo livro que chegou recentemente às lojas especializadas do Brasil e aos sites de comércio eletrônico. Mais do que uma memorável reunião de argumentos do tipo "túnel do tempo" (crossover, em inglês), a obra de 29 histórias curtas distribuídas em 238 páginas de papel brilhante e capa dura é um presente para os admiradores da arte seqüencial, sobretudo a produzida pelo universo DC, além de consagrar trincheiras alternativas dessa mesma indústria. Nela, os maiores heróis da editora são raptados de seus contextos habituais e remetidos a uma alegoria de sandices.
     O nome da compilação veio do personagem Bizarro, o horrendo inimigo do Superman que é uma cópia avacalhada do homem de aço. Conhecido por seu Q.I. de anta, ele foi escolhido pelo duende pentelho da quinta dimensão Mxyzpltk, outro rival do super-herói, para ser seu gladiador no duelo contra A, um gigante com cara de sapo que satiriza o conquistador de mundos Galactus, tendo como arauto uma bailarina transportada no ar por um grande dado. A arma escolhida por Bizarro para a contenda foram os gibis, que ele mesmo bolou na forma de contos repletos de cinismo, humor ácido, ironia e uma crítica inteligente à moderna mitologia. Essa metalinguagem serviu para imprimir talento em diferentes cenários criados para as "vítimas" do escracho. Roberto Guedes soube ajustar as piadas ao repertório brasileiro.

     Especificamente para os fãs de Batman, o que mais interessa é saber onde e como o Morcego participa dessa antologia, que conquistou em 2001 os disputados prêmios Harvey e Eisner. A criação de Bob Kane foi um dos mais requeridos pelas estultices dos grandes artistas envolvidos no projeto, a maioria deles vindo da cena underground dos Estados Unidos e que se alternam nos papéis de roteirista e desenhista. O destaque vai Evan Dorkin, que já havia feito uma elogiada iconoclastia aos dois maiores mitos da DC em Os Piores do Mundo (2003), também publicada no Brasil pela Opera, com Mxyzpltk fazendo a dupla do barulho desta vez com Bat-Mirim, personagem apenas apenas sugerido em Bizarro Comics.

     Em Guerras Bizarras, história que serve de prólogo e epílogo para as demais, o Cavaleiro das Trevas apenas faz uma figuração em uma cena, reunido com os colegas de Liga da Justiça América (LJA). Mulher-Gato e Coringa são só vilões convidados. Depois, em Bizarro Raio-X 2, Batman aparece numa imagem radiografada do crânio de Bizarro acompanhado de outros personagens da Bat-Família: Batgirl (Bárbara Gordon), Caçadora, Canário Negro, Robin e até a falecida Mulher-Morcego (Kathy Kane). Também bem ao estilo anárquico da revista Mad, Bizarro Raio-X 3, outro par de páginas espelhadas, traz o Homem-Morcego brincando num quintal com Mulher Maravilha, Mulher-Gato, Superman, Charada e Coringa – todos convertidos em guris.
     Mais adiante, O Bat-Man flerta com a estética e os roteiros dos primeiros anos do Cavaleiro das Trevas nos quadrinhos. O desenho em preto e branco feito a nanquim mostra, por exemplo, o batgiro, a pioneira bat-máquina voadora. O mascarado com orelhas de morcego enfrenta um King Kong igual ao clássico do cinema mudo e leva no peito um emblema mais parecido com os dos seriados da década de 40 e do logotipo do filme The Bat (1926). A trama de Morcegologia faz referência aos recentes blockbusters adolescentes de suspense mais uma pitada de Tim Burton. Nessa paranóia, duas amigas impedem os mamíferos alados que jazem num vidro de formol de serem dissecados numa aula de ciências, tal qual fossem inocentes coelhinhos vivos.
     Quem apagou o Borracha? Essa análise da Batmania de 1966 brinca com a metalinguagem. Batman investiga a vingança tardia de um vilão esquecido dos sixties, tempo fértil para inimigos caricatos principalmente na TV. "Um dos episódios mais coloridos de minha carreira de combatente do crime", comenta o próprio Cruzado da Capa. Ele vai buscar pistas na própria DC e estranhou o fato da editora ter permitido tantos plágios com o Borracha. Lenny Fiasco é o Borracha, criminoso fantasiado na cabeça com uma ponta de lápis associada a um apagador. Seria uma homenagem jocosa aos nostálgicos rascunhos de garotos em seus cadernos escolares daquela época? O vigarista que não deixa pistas e destrói informações cadastrais acusa Bruce Wayne de ter tirado dele nos tempos de faculdade Celia Smith, a garota do gelo, seu único amor. O Robin da ocasião, um rapaz ruivo que se comporta como estagiário de meio expediente, se chama Gregory.

     Na seqüência, Batcaverna diverte com a história simples de um garoto que foge de casa e acidentalmente descobre o secretíssimo quartel-general do herói. Aquele é Realmente o Super-Homem! é outra paródia desenhada por Dorkin com os Melhores do Mundo, Batman e Superman. O Morcego tem os apetrechos e o visual da série televisiva e disputa com o companheiro de LJA a popularidade do público, semelhante a rusgas colegiais. Brandindo vantagens de si e tomado de inveja, Batman vive uma crise. Ele faz ainda pontas em Assando a Celebridade, estrelada pelo marciano J'on J'onzz, e Dia de Folga, com a Mulher Maravilha. Neste último pastiche, o Morcego aparece no último quadro para coroar o non-sense.  Por fim, Sem Você, Eu Não Sou Nada – uma hilária descrição do ocaso dos sidekiks, como são chamados os jovens parceiros dos super-heróis, categoria inaugurada com Robin em 1940 – tem a presença de Ace, o bat-cão.
     O ridículo que pode se esconder em alguns quadrinhos ganha em Bizarro Comics! dimensão nova ao ser confrontado com realidades banais e cotidianas, não menos engraçadas. Com essa fórmula do "e se...", estão lá desde uma encarnação mais estranha de Aço até disparates como o do time de supermascotes de Krypton, mais assediado que o Superman, e os embaraços de superseres com a realidade de simples mortais, rendendo deliciosas comédias de situações. Nada mais sublime que rir de si próprio. Ao patrocinar deliciosas paródias de sua própria trajetória, a DC atinge invulgar grandeza.

BIZARRICES COM BATMAN

Guerras Bizarras – Chris Duffy (texto) & Stephen DeStefano (arte).

Bizarro Raio-X 2 – Desenhado por John Kerschbaum.

Bizarro Raio-X 3 – Arte de Gilbert Hernandez, o mesmo de Love & Rockets.

O Bat-Man – Chip Duffy (texto) & Tony Millionaire (arte).

Morcegologia – Ellen Forney (texto) e Ariel Bordeaux (arte).

Quem Apagou o Borracha? – Eddie Campbell (texto) e Hunt Emerson (arte).

Batcaverna – Paul Pope (texto) e Jay Stephens (arte).

Aquele é Realmente o Super-Homem! – Ivan Brunetti (texto) e Evan Dorkin (arte).

Assando a Celebridade – Evan Dorkin (texto) e Carol Lay (arte).

Dia de Folga – Ariel Bordeaux (texto) e Ellen Forney (arte).

Sem Você, Eu Não Sou Ninguém – Evan Dorkin (texto) e Steven Weisseman (arte).