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     Bat-intim por tintim - (03/03/2006)

 

     O fascínio por Batman, percebido nos Estados Unidos, no Brasil e no Japão, entre outros países, não se repete na mesma intensidade, contudo, na Europa. Apesar de ser o maior fenômeno da cultura de massa deste planeta, presente em todas as mídias e das formas mais expressivas e variadas, o Homem-Morcego norte-americano não é uma unanimidade em todo lugar desenvolvido como acreditam muitos. O super-herói sem superpoderes precisa disputar a preferência dos europeus com dezenas de personagens locais. Será que o velho continente é avesso às histórias em quadrinhos? Pelo contrário. Não existe região que reverencie mais a Nona Arte no mundo que essa, particularmente na simpática Bélgica, a terra natal dos inesquecíveis Tintim, Asterix, Smurfs, Lucke Lucky e tantos outros. Onde está então o problema que impede Batman de deslanchar no mercado de gibis na União Européia?
     Para tirar essa dúvida cruel fui ver in loco o que a Europa, mais precisamente a Bélgica, achava de Batman. Desembarquei numa gelada Bruxelas em dezembro último para uma temporada de 20 dias. Nesse período tive a oportunidade de saber também porque a capital belga é considerada a meca dos gibis. Minhas férias foram muito instrutivas nessa cidade conhecida pelas suas centenas de cervejas, pelos seus chocolates especiais e por iguarias deliciosas como os doces gauffres.

     A baixa popularidade dos super-heróis made in USA em terras européias se deve basicamente às visões quase antagônicas que essas duas potências, cada uma de um lado do Atlântico Norte, fazem da indústria dos comics. Para os franceses, belgas e italianos, quadrinho é coisa séria, uma arte considerada de primeiríssima grandeza. O chamado “trabalho de autor” é, então, o mais aplaudido. Para o leitor europeu típico (existe?) de HQs, os Estados Unidos tornaram essa expressão artística uma indústria no estrito senso da palavra, que coloca as tiragens (ou volumes) acima de tudo. Estamos falando de uma visão exagerada, é claro. Mas para muitos de lá, trabalhos de qualidade na América são a exceção ou meros acidentes.
Nas estantes de centros culturais, megastores, sebos, livrarias especializadas e cafés do Velho Continente estão as muitas provas da paixão antiga e cotidiana, sobretudo do adulto, pelos álbuns assinados por grandes mestres da bande desine. Para começar, a diferença básica como os mercados de quadrinhos se estruturam na Europa e no restante do mundo está no formato do produto (ou obra, se preferir). O modelo básico das publicações diz tudo. Revistinha em quadrinhos é um termo pouco aceito para os europeus. Encontramos na Itália e Alemanha até impressos do tipo formatinho, bem brasileiro. Mas são exceções à regra.

     Na Europa o que domina mesmo são os chamados álbuns, a maioria de capa dura. É leitura de todas as idades, sobretudo adultos, e a mania de milhões, muitos deles colecionadores cuidadosos e até reverenciados pela imprensa européia. Observando de pesquisadores acadêmicos a barbeiros, verifiquei lá o que estou tentando dizer. Em uma certa entrevista no início dos anos 80, o badalado e revolucionário quadrinista norte-americano Frank Miller dizia o quanto invejava os europeus no tratamento correto que eles davam aos quadrinhos e, sobretudo, aos leitores cotidianos de quadrinhos. Ele lembrava que seus amigos da Itália não eram vistos como retardados quando liam seus gibis no metrô.
A reverência que os francófonos têm com o repórter Tintim é admirável. Se temos fãs dele aqui, na Bélgica trata-se de um símbolo da nacionalidade. Asterix e Obelix vão nessa linha.

     E o Centro Belga das Histórias em Quadrinhos (CBBD, na sigla em francês) é a prova de que fazer filmes, escrever livros e criar personagens de gibis estão no mesmo nível de importância na Europa. Não é por acaso que dois dos maiores jornalistas especializados em quadrinhos do mundo na atualidade são belgas e escrevem para publicações de Paris e Bruxelas, semelhantes à Wizard. Tive oportunidade de entrar em contato com ambos: Didier Pasamonik e Nicolas Anspach. São também interessantes os diversos sites organizados por belgas e dedicados aos quadrinhos. Mas e Batman? Sim, pode-se comprá-lo em euros.

     São raros seus álbuns gigantes. Mais fácil de achara as encadernações de seus arcos de histórias, como Silêncio, Queda do Morcego e Terremoto. Nos sebos (tem uns ótimos em Bruxelas) e gibiterias européias podemos encontrar algumas raridades, como as coletâneas de tiras de jornais dos anos 40 em formato de bolso ou pulp.
Na CBBD, encontram-se poucos livros chamados aqui como teóricos e dedicados aos heróis made in USA. Aproveitei para deixar lá um exemplar do Dicionário do Morcego. Orgulho tupiniquim. O nacionalismo (que beira ao anti-americanismo de alguns) e o mercado desenvolvido de gibis podem explicar porque a imagem desse ícone global não se perpetua com a mesma galhardia na lente européia. Mais do que no restante do mundo, lá o homem-morcego mais conhecido é mesmo o do cinema e até o interpretado por Adam West na TV.
     Mais influenciado pela tela do cinema, ainda com ecos de Batman Begins, que com os quadrinhos, a megaestore francesa Fnac mudou as vestes de Papai Noel para transformá-lo em um novo garoto-propaganda das vendas do Natal passado. O super-herói de barbas brancas Fnacman veste capa e capuz pretos e vem acompanhado de renas mascaradas como parceiros de aventuras. Não é por acaso que existiam e existem projetos para colocar Batman e outros personagens de seu universo em histórias ambientadas na Europa. Exemplo disso foi a recente HQ da Mulher-Gato em Roma. Concluo: uma boa medida para se saber qual é o melhor de Batman está naquilo que o mercado europeu selecionou. Vamos aos catálogos.
 

     GIBITECA DE BH - A coordenação da Gibiteca Municipal de Belo Horizonte, localizada no térreo da Biblioteca Infantil da cidade, está preparando para maio uma semana com programação especial dedicada ao 67º aniversário do personagem Batman. O Dicionário do Morcego deverá ser relançado na ocasião e também servirá de tema para os debates.
     40 ANOS - Enquanto pipocam os rumores sobre a continuação de Batman Begins, com indicações de atores para os hipotéticos papéis (Duas-Caras, Coringa e Pingüim), é Adam West que está na crista da onda. Estamos comemorando quatro décadas dele como Batman. Os festejos formais e informais rolam aqui e outras partes. Vamos agora torcer para evoluírem os entendimentos entre Batbase e o Esquadron da Batmania (Argentina) para recepcionarmos Yvonne Craig, a eterna Batgirl. Fica também o convite de todo batmaníaco brasileiro para o próprio West visitar nosso país.